Editorial

... extraído do Bom Senso de Novembro

A sociedade e a cultura actuais promovem o envolvimento sem compromisso. As relações são “curtes”, não compromissos; as amizades também. Na política fazem-se compromissos logo desfeitos depois de ganhas as eleições. Compromisso é uma palavra temida e evitada, porque exige fidelidade a palavras e alianças faladas. No entanto, precisamos entender que, como cristãos, somos um povo que cumprimos os nossos compromissos. Somos um povo de palavra e de aliança!

Em Lucas encontramos uma das lições mais preciosas de Jesus aos seus discípulos. Ela vem na sequência de quando um intérprete da lei quis pôr Jesus à prova. Aquele, queria saber como poderia herdar a vida eterna. Jesus respondeu-lhe com outra pergunta: “Que está escrito na lei? Como a interpretas? A isto ele respondeu: Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todas as tuas forças e de todo o teu entendimento; amarás o teu próximo como a ti mesmo. Então Jesus lhe disse: respondeste correctamente; faz isto, e viverás. Ele, porém, querendo justificar-se, perguntou a Jesus: Quem é o meu próximo?” A partir daqui Jesus vai contar a história mais célebre que se e conhece em relação ao nosso próximo. Jesus conta uma parábola, a do Bom Samaritano, para exemplificar quem é o nosso próximo e qual deve ser a nossa postura em relação a ele. Você pode lê-la em Lucas 10.30-37.

Se leu o texto irá verificar como eu, que há algumas lições muito preciosas que podemos tirar dele.

Reparamos que diante de uma mesma necessidade, ou seja, de um homem que estava a precisar de socorro por ter sido violentamente maltratado, houve reacções diferentes. O Levita e o sacerdote diante do homem semimorto passaram ao largo; mas o samaritano compadeceu-se…

ENCONTRAMOS AQUI, TRÊS TIPOS DE FILOSOFIA DE TRATAMENTO, EM RELAÇÃO AO NOSSO PRÓXIMO:

1º - A FILOSOFIA DO APROVEITAMENTO
Esta é a do salteador. Ele quis apossar-se daquilo que não lhe pertencia. “O que é teu é meu, quero apoderar-me disso”, seria a sua ideia; nem que para isso tivesse que exercer violência. O incauto viajante viu-se surpreendido por alguém que queria o seu mal. Que queria apossar-se do que era seu. Custasse o que custasse, ele haveria de consegui-lo. Esta filosofia graça nos nossos dias. O que posso conseguir dos outros? Se não vier a bem vem a mal. Temos hoje pessoas que não olham a meios para prejudicar o seu próximo. Mentem, enganam, traem, matam, etc… Esta é uma filosofia que não é cristã mas diabólica. A Bíblia diz que o diabo veio para matar, roubar e destruir, mas Jesus Cristo, o Filho de Deus veio para dar vida e vida com abundância.

2º - A FILOSOFIA DO ALHEAMENTO
Esta é a filosofia do sacerdote e do levita. “O que é meu é meu, quero guardá-lo”. É a filosofia do egoísmo, do egocentrismo. O mais estranho é que ela é perfilhada por quem por princípio, mais se devia dar ao seu próximo. A Bíblia diz que eles passaram ao largo…Não se quiseram envolver, muito menos comprometer com a situação nem com o desespero do indivíduo em causa. Era mais confortável, passar de lado. Provavelmente, cada um deles tinha a sua agenda cheia, e não havia tempo para parar e verificar o estado físico e emocional daquele homem caído.

Este tipo de comportamento, é uma imagem daqueles que são frios, distantes, e que se estão a borrifar para as necessidades e problemas do próximo. Não estão preocupados com quem está caído nem a razão por que assim está. A situação em causa não é da sua conta, e por isso não é da sua responsabilidade. Esta é uma filosofia que não é cristã, mas mundana e de religiosos sem vida!

3º - A FILOSOFIA DO COMPROMETIMENTO
A filosofia do samaritano. “O que é meu é teu, quero reparti-lo”. Esta é a filosofia do verdadeiro compromisso com Deus e com o nosso próximo; o verdadeiro compromisso envolve dinheiro, tempo, mas acima de tudo estar dispostos a darmo-nos a nós próprios. O verdadeiro compromisso envolve se necessário mudar o nosso percurso e a nossa agenda.

O samaritano estava comprometido em salvar alguém que dele necessitava imediatamente. E tudo fez para isso. Parou, aproximou-se, tocou, ungiu, ergueu e pôs o necessitado no seu próprio cavalo; depois quando teve que se ausentar e deixa-lo aos cuidados do estalajadeiro, pagou-lhe e comprometeu-se a voltar e assumir todas as responsabilidades e despesas daí inerentes. Esta é sem dúvida a filosofia de vida de Cristo, que a Palavra de Deus nos ensina a praticar, para com aquele que é chamado de próximo. Com este exemplo, aquele homem ficou a saber bem, quem Jesus considerava o seu próximo, e quem ele também deveria reconhecer como tal.

As pessoas descomprometidas arranjam sempre uma desculpa. É longe, não tenho tempo, preciso de resolver isto ou aquilo. A minha agenda está cheia. Pode ser daqui a algum tempo quando…

A Bíblia Viva em Eclesiastes 11.4 diz: “Se você esperar pelas condições perfeitas, nunca conseguirá fazer nada; se insistir em resolver todos os problemas antes de tomar uma decisão, você nunca conhecerá o sentimento de viver pela fé” (e uma vida de compromisso com Deus e com seu próximo, acrescento eu)

O grande problema é que para servirmos a Deus e ao nosso próximo precisamos morrer para nós próprios, abdicar de tempo e de coisas que nos dão conforto e prazer. Temos que mudar às vezes as nossas prioridades e a nossa agenda. “Sem sacrifícios ninguém servirá o Senhor”. Se esperarmos ter todas as condições para fazer o que está no nosso coração em relação ao próximo e a Deus, esse tempo nunca chegará, porque não existem condições perfeitas. O que existe é uma disponibilidade perfeita, para fazer pelos outros e pelo Reino de Deus aquilo que estiver ao nosso alcance. E quando assim é, acabamos por atrair a graça de Deus e marcar aqueles que são o objecto do nosso amor.

Amemos e sirvamos de coração o nosso próximo, mesmo tendo que mudar a nossa agenda e com condições que não são aquelas que gostaríamos de ter; as condições perfeitas não são da nossa responsabilidade, mas um coração perfeito (disponível) sim!


Prs. Eunice e Jacinto Rosa
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Actualizado em 2007 Junho 30